sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Guerra De Facão - Falcão e Zé Ramalho (Composição: Wilson Aragão)

Confesso: sou fã!




A dor do cocho é não ter ração pro gado
A dor do gado é não achar capim no pasto
A dor do pasto é não ver chuva a tanto tempo
A dor do tempo é correr junto da morte
A dor da morte é não acabar com os nordestinos
A dor dos nordestinos é ter as penas exageradas
E a viola por desculpa pra quem lhe pisou no lombo
e lhe lascou no cucurute vinte quilos de lajedo.
Em vez de achatar pra caixa-prego o vagabundo,
que se deitou no trono e acordou num pau-de-sebo.
Eh eh eh boi, eh boiada, eh eh boi
A dor do jegue, tadin, nasceu sem chifre
A dor do chifre é não nascer em certa gente
A dor de gente é confiar demais nos outros
A dor dos outros é que nem todo mundo é besta
A dor da besta é não parir pra ter seu filho
A dor pior de um filho é chorar e mãe não ver.
Tá chegando o fim das épocas, vai pegar fogo no mundo,
e o pior, que os vagabundos toca música estrangeira
em vez de aproveitar o que é da gente do Nordeste.
Vou chamar de mentiroso quem dizer que é cabra da peste.

A dor do sol é que ele não conhece a noite
A dor da noite é que não tem mais seresteiro
A dor do seresteiro é o medo da polícia
A dor da polícia é ter ladrão no mundo inteiro
A dor do mundo inteiro é que tá chegando gringo
A dor pior de um gringo é outro gringo do outro lado
Não sei se tô errado mas arrisco meu palpite
de acabar com as bombas "atromba", encoivarar os rifles,
tocar fogo em toda tenda que é de fabricar canhão.
Morre muito menas gente se a guerra for de facão...

sábado, 5 de setembro de 2009

Religiões e universitários


Fonte: http://perrusis.zip.net/images/Ateu.jpg

Até os treze anos eu rezava diariamente. Não sei o que aconteceu, mais isso perdeu toda a força em mim.Mentira. Eu sei o que aconteceu e é isso que eu vou falar nesse texto. Antes de ter contato com qualquer ciência, o pensamento sobre religião, Deus e a divina providência já haviam deixado de fazer qualquer sentido. Já dormia sem rezar e não tinha o mínimo remorso. Dormia como uma pedra. Hoje em dia, Deus (em seus vários nome) e a religião ( em suas várias formas) saíram totalmente do meu foco de interesses. Durante o período da universidade eu tinha uma posição que eu considerava mais retórica do que necessariamente um posicionamento. Eu me acreditava agnóstico, ou seja, (tentando fazer uma generalização didática aqui) defendia o pressuposto de que a discussão sobre a existência se fundamentava em dois lugares opostos que partiam da mesma natureza. Quem acredita não tem evidências e quem não acredita também não. Assim, a discussão é fundamentada em dois opostos. É como discutir Vasco e Flamengo pra saber quem é o melhor mesmo sabendo que um vascaíno não vai dizer que o Flamengo é bom e que um vascaíno também não faria algo do tipo. Ando pensando nisso a um bom tempo e principalmente porque eu venho descobrindo que o pensamento metafísico é mais forte do que se imagina na Universidade. Lembro dos primeiros períodos em que um amigo meu ao abrir um e-mail viu um convite para participar de um grupo de psicólogos cristãos. Isso mesmo! Psicólogos cristãos. Na minha tradução aquilo era igual a grupo de auto-ajuda. Abro um parêntese aqui, pois pra mim, da mesma forma que auto ajuda não é psicologia, Paulo Coelho não é Filosofia. Pronto! Protesto feito! Desculpe quem gosta, mas aquilo é um lixo. Lembro de sempre passar nos corredores e ver o pessoal da Aliança Bíblica Universitária da UFS cantando seus hinos de louvor e achava aquilo uma idiotice. Hoje em dia não acho mais, creio que um dos grandes sucessos que a História e as ciências humanas em geral conseguiram colocar em mim foi aprender a lidar com a diferença. Além do mais, eles pelo menos são fiéis a princípios que não são modismos. Pior são os universitários que do dia pra noite aderem a novas religiões, seitas místicas e coisas do tipo e que são os mesmos que vão criticar o catolicismo. Minha turma do curso de História estava repleta de evangélicos e católicos. Ao contrário do que se pensa, os ateus e afins eram minoria e ninguém mudou de crença por causa da História. Muitas vezes recebiam com maus olhos qualquer proposta que questionasse o Cristianismo. Acho que quem diz que História é coisa de ateu se baseou em um conhecimento muito restrito do que é realmente a História como oficio e a História ensinada. Já vi muito na Universidade, cadernos com capas de Nossa Senhora, Smilingüido (aquela formiga de luvas que tem nos produtos católicos) e coisas do tipo. Com o tempo isso se mistura em nossa vida e a gente vai percebendo que isso é normal. Assim, a academia e toda a sua carga científica, pelo menos nas Ciências Humanas, não tem essa força que se imagina. A ciência não tem esse poder de convencimento a ponto de fazer as pessoas repensarem crenças que foram resultado de anos de socialização de pais, professores etc. Mas ai eu acreditava que existia certo ponto onde isso cessava em quem ia além nos estudos de qualquer ciência ou pelo menos diminuía drasticamente. Engano meu. Recebo com muita freqüência dos colegas da pós-graduação, até mais do que gostaria, Power points com mensagens de fé, esperança, Cristo e Deus pra cá e pra lá, que tem alguém olhando por mim, e o dom vida e perêrê e parará. Isso reúne duas coisas que eu não suporto: Power points e mensagens religiosas. Conjugados, pior ainda. Sinceramente, acho um certo desrespeito, claro que não intencional, você partir do princípio de que todos têm uma crença no Deus e ainda mais no Deus ocidental ao enviar essas mensagens. Eu nunca enviei nenhuma mensagem dizendo: Vejam que belas palavras sobre o ateísmo e a descrença na religião. Parece que existe um consenso de que todos nós partimos de alguma crença religiosa e que, coincidentemente, ela se aproxima do cristianismo. E se eu mandasse uma mensagem budista? Ou com dizeres do Alcorão? Ou com cânticos da Umbanda e do Candomblé? Seria recebido da mesma forma? Só sei que essas coisas me fizeram repensar as minhas posições. Há muito tempo eu não pensava nisso e decidi que... vou fundar uma Igreja universitária!!! Ela reunirá todas as tendências. Será A IEUB (Igreja eclética universitária do Brasil). Será em um terreiro, com rodas de violão, charutos, hóstias e cristais e nosso Deus será um extraterrestre marxista que descerá da via láctea vestido de pai de santo e com uma bíblia na mão gritando como pastor trechos de filme de Almodóvar e com uma bandeira GLBTT na testa. Coisa de Pimba do mais alto nível. Todas as tendências. Hahahahahahaha. Gente...brincadeira. Não se trata disso, apesar de não parecer má idéia. Ciência não dá dinheiro mesmo em curto prazo. Na verdade, o que eu quero dizer vai parecer meio óbvio pra quem me conhece, mas eu percebi que definitivamente não acredito em Deus. Na verdade, não é uma questão de crer. Na verdade, nunca senti falta de Deus na minha vida. O pior é que a gente sempre ouve, principalmente das pessoas mais velhas que já pecaram muito e agora querem curtir o céu, que todo mundo precisa ter uma religião porque é preciso acreditar em algo. Mas e quem disse que eu não acredito em algo? Acredito na justiça social porvir, acredito no desenvolvimento da ciência, acredito que as coisas simples às vezes são as essenciais. Só não acredito em Deus. Nunca senti dessa “dor de barriga espiritual” de que as pessoas falam. O pior é que às vezes ouço de pessoas dizendo que “certas pessoas nunca conquistam nada, porque não tem crença em coisa alguma”. Nunca fiz qualquer barganha metafísica pedindo a Deus coisa alguma. E nunca o culpei pelo que não consegui. Melhor ainda, nunca fiquei em cima do muro dizendo, “não vou a Igreja, mas acredito em Deus” ou então “tenho um lado espiritual independente de religião”. 1. Não vou a igreja, a terreiro, a sessão de mesa branca se não tiver uma finalidade didática. Pensei em levar meus alunos para conhecerem um terreiro. Um professor logo me advertiu: “já tentei, mas as mães quando sabem da nossa intenção dizem que aquilo não é religião de gente”. Bom, a Cultura Afro está lá para ser dada e temos que responder a demanda curriculares e as demandas da comunidade. 2. Nem lado espiritual tenho. Não adianta vir com budismo, Umbanda, Espiritismo, Candomblé, Seicho No-Ie e qualquer culto que mexa com coisas sobre luz interior, luz da vida, paz interior, equilíbrio, essência, cristais, chácras, incensos, elefantes de vários braços e etc. E nem aquela religião que deixou Tim Maia mais maluco do que ele já era: A Cultura Racional e aquele papo de outras civilizações pára além da terra. Nada disso, pra mim estamos girando sozinhos no espaço, pra mim a vida é matéria, sem sentido determinado, uma luta constante, cheia de possibilidades e por ai vai! E isso foi fazendo sentido aos poucos. Sem forçar a barra, sem transitar em várias religiões pra tentar se encontrar ou para fazer parte de modismo universitários com as religiões “oprimidas”, sem comer hóstia, pagar dízimo ou incorporar entidade. A identidade muitas vezes se constrói por oposição ao outro e não sei se estou fazendo exatamente a mesma coisa optando por um lado definido. Eu ouço muito na universidade a “critica ao terror da Razão” e que a racionalidade pode estar a serviço da opressão e tudo mais. Mas acho que prefiro o discurso da racionalidade cheia de buracos ao discurso da fé. Pelo menos o discurso da racionalidade, por mais datado que seja, é o mais propenso a discussão e menos sujeito aos anacronismos, ou seja, querer sustentar valores que não cabem mais em uma sociedade moderna. Quando penso na bancada religiosa que barra os projetos sobre pesquisa sobre células tronco e sobre aborto percebo que fiz uma boa escolha. Concluo dizendo que, se Deus está em qualquer lugar, logo, ele está nesse blog. Quem sabe não é ele que está escrevendo para testar a fé de vocês. Quem sabe eu, Kleber Luiz, seja Deus e vocês nunca perceberam.


P.S: Deus com letra maiúscula é apenas questão de respeito às regras gramaticais.

domingo, 23 de agosto de 2009

O romantismo está no ar

A primavera me deixa romântico. Penso em uma música. E toda música traz uma imagem a cabeça. Mas não basta imagem, tem de haver poesia. Então, como não podia deixar de ser, fui a caça de algo que trouxesse um pouco mais de romance a esse blog. Essa linda imagem com um alto poder de sugestão, retirei do blog de uma amiga (http://apenasdeborah.blogspot.com/). Uma romântica incorrigível. A autoria da imagem é de Denisson vulgo "Preto papai".Ele estava realmente no clima da primavera.


sábado, 22 de agosto de 2009

Dicionário de sociologia para não-sociólogos.

Vocês sabem que toda vez que que não tenho nada a colocar no blog, sempre encontro uma besteira a altura das que escrevo. Eu tenho compromisso com o padrão desse blog. Quero dividir aqui com vocês um achado incomum. Uma de minhas colegas de mestrado colocou a disposição na internet vários livros. Entre eles estava um dicionário de Sociologia no mínimo cômico. Escrito por Hugo de Los campos, esse dicionário traz verbetes que passam longe de serem sociológicos, mas que valem a pena serem lidos. Destaco apenas um porque não consegui copiar e colar do texto do livro e estou com preguiça de escrever. O texto está em espanhol e sem legenda:


Burgués: Antigo personaje que se escondia a la hora de acumular riqueza e exhibía ostentosamente a la hora de despilfarrala. Sus descendientes más cercanos realizan essencialmente las mesmas actividades de su progenitor, pero se diferencian de aquel por no exhibir su mismo pudor al ejecutar la primeira(CAMPOS,1988,p.5).



Quem quiser, baixe em: http://www.4shared.com/file/68419772/db8300d7/DICIONRIO_DE_SOCIOLOGIA__em_Espanhol_.html

domingo, 21 de junho de 2009

Tempos modernos - espaços vazios (Diogo Monteiro).

Uma pequena apresentação: Gosto muito de frases de efeito. Tem um provérbio árabe que retirei da leitura de um livro do historiador Marc Bloch que diz assim: "Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais" .Diogo é amigo do início da graduação em História. Freqüentou sempre o mesmo espaço acadêmico que eu. Sujeitinho de escrita fácil e elegante, um cara simples e reservado. O texto que deixo aqui para vocês é produto, na minha opinião, de um saudosista. Ele é um cara que apesar de ser novo, possui cabelos brancos (sem brincadeira).Seu apelido na UFs era "Vovô Diogo". Isso só torna esse texto mais interessante. Em tempos de celebração da internet como convergência do mundo em um sistema reticular de comunicação que supostamente abarca (ou abafa ) todas as diferenças, esse texto pode mostrar que as frases de efeito, carregadas de sabedoria milenar, nem sempre são tão sabias assim. Cada coisa em seu tempo.
Espero que gostem:.



A contemporaneidade, marcada pela égide da globalização, tecnologias, informatização, Internet, reduzindo espaços, destruindo fronteiras. Será que nós, que vivenciamos toda essa euforia globalizante, das parafernálias digitais, realmente, sentimo-nos completos, preenchidos, alvos de todas as atenções do mundo?

As tecnologias digitais, do mundo da “net”, como alguns de meus alunos denominaram, com os “msns” e “orkuts” da vida podem até serem meios interessantes para quem pretende fazer novas amizades, e até mesmo iniciar um relacionamento amoroso. Apesar da parca experiência que tenho como usuário destes recursos tecnológicos, já pude perceber que eles são espaços geralmente “freqüentados” por indivíduos carentes, que vez por outra reclamam da própria existência, e que, no mais das vezes, estão mendigando um pouco da atenção das pessoas que estão do outro lado da rede.

Contatos vazios, sem rostos, sem cheiro, sem tato, apenas palavras, e palavras digitadas, impessoalidade extremada. Será que a pessoa com quem converso no “bate-papo” é realmente quem ela diz ser? Difícil saber. Mas estamos sempre lá, “teclando”, implorando a uma pessoa desconhecida, da qual nem sequer podemos ter garantias de poder conhecê-la pessoalmente, um pouco da sua caridosa atenção. O primeiro “oi” sempre gera expectativas, “será que vão corresponder ao meu chamado?”.

Já se foi o tempo em que os amigos encontravam-se casualmente na praça ou numa esquina qualquer do bairro onde residiam e devotavam horas e horas do seu dia a jogar papo fora, futebol, antigos e novos namoricos, confidências e até mesmo brincadeiras sem graça ou fora de sentido, onde tudo era motivo para risadas e fonte de assuntos para o repertório de conversas do dia posterior.

O leitor pode até me considerar um homem atrasado, antiquado, um “velhinho” quadrado e nostálgico, mas estou certo de que nada substitui o prazer de um bate-papo demorado, o contato direto, a convencional conversa tê-te-a-tê-te, seja ela com um amigo de infância ou com uma pessoa que se tenha conhecido recentemente. Penso que somente deste modo, podemos falar em novas experiências de vida, que permanecem durante muito tempo na nossa memória.

Se os anos forem generosos comigo, espero em Deus um dia poder ter muito o que contar para os meus netos, tecer relatos sobre as minhas experiências com os “chats” da Internet, que com toda certeza seriam concluídos com a seguinte afirmativa: “meus netinhos, a solidão foi o grande mal da minha geração.”
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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Jornais, Tv e dejà vu

Um avião cheio de franceses e brasileiros caiu no mar e ainda não se achou muita coisa. Essa seria uma das várias formas de dar uma noticia de forma séria e profissional. Mas por que a imprensa insiste em fazer com que saibamos os detalhes mais sórdidos do sofrimento alheio? Tenho uma hipótese: não é por compaixão. Graças à imprensa e a sua sede em “informar”, agora eu sei quanto tempo se leva pra morrer em uma queda de avião, como se morre, se a pessoa fica acordada e tudo o que se precisa saber para possivelmente não se entrar em pânico. Já me sinto preparado. Já posso especular sobre as infinitas possibilidades do que pode ter acontecido com os corpos. Já presenciei o sofrimento de dezenas pessoas que choram em todos os programas possíveis de televisão ao lado dos estudiosos sobre segurança e trafego aéreo, que deixam de produzir suas pesquisas para disputar 15 minutos de reconhecimento no programa da Ana Maria Braga. O pior é que colocam vitimas atormentadas pelo drama de perder um ente querido, e que muitas vezes querem que se faça mais do que se é possível fazer, ao lado dos técnicos que afirmam justamente que é preciso ter cautela. É pedir um confronto direto entre a opinião técnica e o sentimento. O engraçado é que em meios de comunicação diferentes, em que se supõem pessoas de formação diferente e supostamente tendências políticas divergentes ou pelo menos conflitantes, se consegue escrever e dizer a mesma coisa. Até os mesmos acontecimentos pitorescos da tragédia são narrados por vários jornais diferentes da mesma forma.

Pierre Bourdieu, em sua mania de querer falar sobre tudo, falou dos jornais e de sua tendência a homogeneização em um livro chamado “sobre a televisão”. Em resumo, os jornais seguem a lógica da concorrência e essa lógica, que é um dos pilares da economia liberal e defendida justamente por incitar a inovação, nos jornais funciona ao contrário. O valor de uma noticia é dado por quem a veiculou primeiro, ou seja, por um fenômeno que ele chama de “circulação circular da informação” (p.30). Assim, ler jornais diferentes significa estar em um grande dejá vu de informação. Diferencia-se quem traz o detalhe primeiro e não exatamente sobre o que se pode dizer diferente sobre o assunto. Todos os desastres são assim. Crianças jogadas da janela por pais maníacos, aviões que caem, chacinas e toda ordem de fenômenos que possam render algumas semanas de especulação sem sentido. Agora porque pegar uma matéria e insistir tanto nela? Na teoria do jornalismo isso tem um nome. É um troço chamado agenda setting. Em conversa pelo MSN, minha namorada me explicou o que é isso:

Para respaldar a influência da mídia de massa no que a sociedade discute, Maxwell McCombs criou, na década de 70, o conceito de agenda setting, no qual a mídia cria a agenda da sociedade, ou seja, determina o que os indivíduos vão discutir por meio de vários critérios como relevância e valor – noticia. Tratam-se de regras relacionadas ao conhecimento profissional do jornalista. O que deve ser omitido, acrescentado na noticia quando vai ser dada” (TOURINHO, 2009).


Entenderam? Mas agora vem o melhor. Quando perguntei o que geralmente se coloca como relevante para ser mostrado ou omitido e como essas regras são definidas ela me disse:


São vários critérios. Quando se fala em critérios de seleção em um jornal, isso se remete ao gatekeeper, que é o que têm o poder de decidir o que vai ou não para o jornal. É como se a mídia decidisse o que é relevante ou não para a sociedade. A gente escolhe o que vai dar matérias futuras pela possibilidade de repercussão delas na “agenda” da sociedade. Esse tipo de matéria, como a do vôo da Air France se encaixa nas chamadas suítes. Essas podem ser definidas como matérias que são continuação das anteriores com outro gancho (enfoque). Outra coisa que acontece muito no jornal é a distorção involuntária, que é a nossa autocensura. Quando a gente trabalha numa redação, não podemos escrever qualquer coisa porque não só vivemos das assinaturas dos leitores, mas de publicidade e outras coisas. E isso influi em tudo. Aí a gente se policia pra saber o que a gente escreve. O que estuda isso é o newsmaking, que é outra metodologia, é a chamada etnografia da comunicação, o qual estuda os critérios de noticiabilidade, a cultura profissional do jornalista. A cultura do jornalista entendida como os valores da profissão. A metodologia é a observação participante" (TOURINHO, 2009.)



Podemos tirar algumas conclusões desse trecho:

1. Diferente da novela das oito, jornalistas não são sujeitos combatentes do interesse das grandes e do abuso do poder econômico. Muitas vezes são instrumentos de manutenção dela, pois precisam defender o seu ganha pão. A profissão do jornalista só tem glamour. É umas das profissões mais mal pagas que já vi e que possui uma carga de formação intelectual relativamente grande para o salário que se ganha.
2. A ilusão de que ser um jornalista é automaticamente lutar contra o que há de opressor no mundo é balela. Um jornal é uma empresa e como empresa está também interessada em números, cifras e projeções de mercado. Mas não é só o jornalismo que precisa ser “des-romantizado”. A prática da ciência precisa ser vista com menos inocência. Nem mesmo a História escapa disso, na verdade, principalmente ela. Mas isso é assunto para outro texto.



Mas essa sensação de “já isso me algum lugar” não é um privilégio dos jornais. A televisão, como meio de comunicação de massa, dá a sua contribuição na produção em escala industrial dos bens culturais. Conseguiram lançar recentemente algo pior que o BBB. Trata-se de um programa chamado “A fazenda”. Bom, pelo menos do nome eu gostei. Sei lá, tem algo de cínico em trancar vários artistas desconhecidos, lutando por reconhecimento como animais em uma jaula e batizar esse programa com o nome de “fazenda”. Mas não é um programa exatamente igual. Não contentes em copiar o formato, eles exageraram. É pior porque é o exagero do que se tem de ruim no BBB. Conseguiram arranjar uma cara pior do que Dado Dolabella. Misturaram os artistas das novelas malucas da Record, com comediantes non sense, com ex VJ`s, modelos e todo tipo de gente que vive na corda bamba do ostracismo. A diversão alheia é narrada por Brito Junior, o arauto dos valores morais da sociedade. Lembrem dele por aquele programa de todas as manhãs na Record que tem um monte de apresentadores que falam de tudo, de crise financeira até receitas de empadão passando pela crise no Oriente Médio.

O que importa concluir é uma coisa que não tem muito a ver com o que falei até agora, ou seja, enganei vocês o tempo nesse texto. O que posso concluir através do exemplo é que os jornais e a TV tem uma parcela de culpa na sensação de tédio e de monotonia que as vezes sentimos na vida. As mesmas tragédias narradas no detalhes mais sórdidos. Os acidentes e o investimento televisivo no sofrimento alheio. Ana Maria Braga, Faustão, Fantástico, Ratinho, Hoje em dia e afins. Os escândalos acompanhados em flashes constantes na TV e nos jornais. Alguns temas são mascarados com pseudo-debates, como foi o caso da menina que foi violentada, engravidou e foi excomungada pela igreja. Todo dia, eram acrescentados detalhes mínimos sem qualquer importância com uma discussão séria, que só mobilizavam carolas fanáticos e ateus porra-louca. Sinto essa sensação de repetição principalmente nesse periodo de festas juninas. É tudo a mesma coisa. Eu sei que a repetição dos rituais na cultura gera a tradição (tomara que ninguém da Antropologia leia isso) e que as vezes as mudanças só podem ser sentidas em longa duração, ou seja, no passar de muitos anos é que identificamos as diferenças nos processos que pareciam sempre iguais. Por isso que as pessoas mais velhas sempre se queixam que os carnavais de antes eram melhores. Mas cá pra nós: tem coisa mais chata do que todo ano ver aquelas matérias com Pierre Feitosa e aquela gargalhada bisonha? Ou ver os flashes do Forró-Caju? Ou até mesmo ver pela tricentésima vez Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Zé Ramalho cantando pout-porri de Raul Seixas? E ver concurso de quadrilha? E ver pessoas vestidas de roupa listrada, bota e chapéu de cowboy? E aquela batida de forró na sua orelha por dois meses (pum pum pupupum pum). Não tenho nada contra jornalistas. Namoro uma. Não ligo mais para o que os jornais publicam de repetido, pois já tem gente demais se preocupando com isso. Esse texto é apenas exercício de escrita. Terapia para quem não gosta de jogar bola. Qualquer coisa do tipo. Apenas um lugar em que posso me dar ao luxo de ser senso comum, pois sei que NINGUÉM VAI LER ESSA MERDA.

domingo, 3 de maio de 2009

A praça

Depois de uma eternidade sem postar nada, eis que consegui um tempo para escrever as inutilidades costumeiras. Esse texto é um relato etnográfico do que vejo no caminho de casa na sexta e sábado a noite. Porque isso importa? Obviamente, por nada. Caso contrário não seria um blog. Enfim... toda vez que leio alguma poesia que possui uma praça como cenário, sempre aparece em minha cabeça a imagem de um lugar de árvores e sossego. Uma cidadezinha e tal. Mas hoje em dia as praças são lugares opressores. Opressores não só porque eu que convivi com outras formas de sociabilidade. Nos conjuntos residenciais, pelo menos onde moro, andar na praça é transitar em uma espécie de campo de batalha hormonal. Toda os jovens da localidade decidem se juntar ali e dar demonstrações daquilo que os fazem ser a juventude do século XXI: motos velozes, mini-shorts e sons de mala de carro. Uma batalha de sons incompreensíveis e de demonstrações simbólicas de poder baseada na posse de determinados bens. Toda vez que desço no ponto de ônibus em uma sexta ou sábado a noite e sigo em direção a minha em casa, atravesso uma praça, e a cena que vejo é: rapazes correndo em círculos ao redor da praça com suas motos e seus carros, cada vez maiores. Lá vem o primeiro perigo. Andar em uma praça assim é como ser um animal preso no meio da corrida de Indianápolis. Coincidentemente, a praça já tem o formato de pista oval. Sem maldade, mas acredito que muitos daqueles adolescentes não compraram aquelas motos, pois quem trabalha para comprar uma moto deve ficar muito cansado pra correr em círculos como uma hamster. Cada um tenta correr cada vez mais rápido como se o mundo fosse acabar. Na verdade, uma marca característica de ser jovem é viver como se o mundo fosse acabar amanhã. Depois que crescemos, lamentamos por isso não ter acontecido. Vou andando, e aproximando-se do olho do furacão, outra que percebo nas praças de hoje em dia é que perto das motos sempre há um grupo de adolescentes do sexo feminino, trajando as roupas as bonecas que brincaram na infância. É um fardamento tão corriqueiro em uma sexta a noite que até mesmo as mais desprovidas de atributos físicos utilizam aquela roupa apertada que exige das gorduras um ato de liberdade projetando-se a frente como um cartão adiposo de visitas. Coisas da moda. O que importa dizer, é que elas são o prêmio para os famigerados corredores. São o motivo de tanta pressa. Muitas delas lembram minhas alunas (coisa de velho, né?). Na verdade, algumas delas são minhas alunas. O engraçado é que, mesmo naquele lugar cheio de gente, se você usa as pernas para andar não será percebido. Explico: ser notado nas praças é ter duas rodas. E não vale Shineray. Dentro de uma escala, a Shineray é um elo perdido entre a moto e a bicicleta. A Shineray é para quem quer chegar a algum lugar. As motos potentes são para quem não quer ir a lugar algum. Vou andando e em meio aquele turbilhão, ao lado, você nota um grupo de usuários taciturnos, fumando um baseado e espreitando a felicidade alheia, de longe, porque ali nas luzes da praça é o lugar reservado para a felicidade materializada na posse de determinados bens, simbólicos ou não. Eles carregam um olhar moribundo, a cara de quem ficou de fora da festa, sempre falando baixo e olhando desconfiados nos quiosques afastados da luz. Quem acompanhava os X-men se lembra dos Morlocks: um grupo de mutantes subterrâneos que se escondiam do “mundo de cima”. Pois é, eles são uma espécie de Morlocks da praça. Vou andando. Nas calçadas, os espécimes machos (desculpe a analogia biológica, não resisti) que não estão na moto, estão fazendo a dança do acasalamento ao som dos sucessos da Bahia, que só existem mesmo para fazer as pessoas acasalarem, dando continuidade ao projeto divino de “crescei-vos e multiplicai-vos”. O engraçado é que não é só a dança, é a forma de delimitar o espaço. Quando passo perto de um cara se expressando de forma tão “animada”, ele me olha e deve pensar: Olha o rockero! O Cabeludo! Logo em seguida, ele começa a rebolar e dançar cada vez mais frenético esperando talvez que eu vá derreter ao contato com o Axé. Acho que ele pensou que eu poderia começar a bater cabeça para confrontá-lo em uma disputa tribal. Prossigo no caminho de casa. Nas mesas dos bares, as pessoas gritam no ouvido umas das outras, porque manter o status de ter o som mais alto da praça impossibilita o detalhe da comunicação entre os seres humanos. O próximo perigo consiste em ficar surdo. Na verdade, ficar mais surdo, pois quem me conhece já sabe que não ouço muito bem. Passo ao lado daquela mala aberta, que às vezes vale mais do que o próprio carro, com um grave que parece que o coração da gente vai sair pela boca. Se um dia, o fim do mundo for conduzido a toques de tambor, será semelhante ao som grave da mala dos carros. O pior é que a música desaparece encoberta por aquele grande TUM TUM TUM TUM TUM. Consigo escutar o grave depois de chegar em casa. Ele vai pra cama comigo. Enfim, o que temos até agora para configurar o nosso cenário? 1)Uma praça com pessoas andando em círculos ou dançando freneticamente para atrair a atenção das fêmeas. 2) Calçadas cheias de pessoas que ouvem o grave ensurdecedor de uma mala de carro sem conseguir conversar. Parece loucura. Mas é o caminho que faço para chegar em casa na sexta-feira ou sábado a noite.Mas uma coisa que a Antropologia me ensinou é que cada cultura tem a sua própria lógica. Devemos sempre respeitar a forma de viver dos que são diferentes e respeitar as ambições de cada um. Jovens rapazes com um futuro repleto de grandes marcas de roupa e sons de carro. Promissoras moças que um dia andarão nas garupas de filhos de vereadores e deputados, mantendo-se sempre belas para enfeitar as motos.