quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Natal...

...e que o mesmo de 2010 seja melhor que o mesmo de 2009.


Elegia 1938 - Carlos Drummond de Andrade

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século, a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Orkut: a especularização do cotidiano


Gostaria de começar esse texto com uma experiência:

Eu acordo, levanto da cama, pergunto o que tem pra comer, escovo os dentes e vou tomar café. Sento no sofá e penso no que tenho de fazer durante o dia. Penso no que está certo, no que está errado, ligo a TV, me chateio por ter ligado e não achar um desenho que preste, vou para o computador ver os emails, leio, se precisar sair, saio, volto, faço o que tenho de fazer, vejo ou ligo minha namorada, digo coisas bonitas, discuto as vezes, faço ligações, vou ao banheiro, ouço música, almoço, descanso, saio, fico em casa, vejo o jornal da noite, vou rever os emails...e por ai vai.

Terrível, né? Contando assim parece muito chato, um verdadeiro exemplo do que há mais corriqueiro na vida. E logo nós, jovens, que estamos sempre falando em viver cada instante como se fosse o último. Logo nós, adultos, que muitas vezes vivemos uma adolescência prolongada. Esse exemplo é apenas uma descrição sumária de um dia da semana na minha vida. Mas, e seu eu narrasse isso aqui durante uma semana, um mês, um ano, cinco anos, e junto a mim várias pessoas diferentes também contassem o que fazem da hora que acordam ao último “pum” que soltam antes de dormir? Contando o que gostam e o que odeiam para outras pessoas que estão o tempo todo também fazendo o mesmo, falando sobre si mesmas. Pois, isso é o Orkut, e lá isso é o que há de mais essencial: contar o cotidiano, o ordinário.

A idéia desse texto surgiu da indignação de uma amiga quem me disse: “estou pensando em matar o meu Orkut”. Perguntei o motivo e ela falou: “cansei de ver esse povo velho se mostrando, fazendo caras e bicos aqui”. O engraçado é que na hora que ela disse isso respondi: “não faça isso, Orkut é assim mesmo”. Depois pensei: “qual a diferença dela matar o orkut dela ou não?” A amizade continua a mesma”. Ai percebi o quanto essa coisa de vida virtual ganha cores de uma quase segunda vida. Dizer que vai matar um perfil não deveria ser algo tão problemático que a gente precisasse pensar tanto para fazer. Porque, fora algumas exceções, qual a verdadeira serventia do Orkut? Encontrar pessoas com quem perdi contato? Bom, das pessoas que adicionei no Orkut (e vice-versa) por tê-las reencontrado virtualmente, mantenho, com a maioria delas, a mesma relação que mantinha antes, só que agora virtual, ou seja, continuam sendo pessoas com quem perdi o contato e ainda pior, a distância antes era presencial, hoje é também virtual. E ainda acabo vendo o que elas andam fazendo todo o dia. Não parece um contra senso? Perde-se o contato com alguém, mas se sabe tudo sobre a vida dela. E a tendência é esse tipo de socialidade se acentuar cada vez mais, visto que, agora o Orkut até sugere amigos...certa vez um garoto me adicionou e eu perguntei de onde ele me conhecia. O cara responde: vi você na sugestão de amigos.

O Orkut parece amplificar de uma maneira muito estranha as relações com as pessoas e com as pequenas coisas da vida. As Novas tecnologias de comunicação como MSN, Orkut, fotolog, blog, twitter são formas de promover uma estandartização, uma espetacularização do cotidiano, do banal. Daquilo que, na frente de uma pessoa seria totalmente descabido comentar com tanta ênfase. Tem gente que não vai na esquina sem mudar o status do MSN com alguma frase, tipo: fui ali na casa de fulaninha fazer “num sei o quê” e volto em meia hora. Que vai comprar pão e coloca mais 20 fotos novas no Orkut. Vai “descer um barro” e posta no twitter. Cada momento parece ser algo pra se guardar, mesmo que seja totalmente comum, trivial. Gosto das coisas simples da vida, mas não vamos exagerar. Parece haver uma imagem a se guardar o tempo todo, em cada foto, uma maneira de se proteger do anonimato através da tentativa se ver constantemente reproduzido em vários lugares. Um perfil do Orkut muitas vezes me lembra aqueles quadros de Andy Warhol em que uma imagem é repetida diversas vezes em cores diferentes.


Uma tentativa de mitificar a própria imagem. Um mundo onde todas as janelas levam a você, quando na verdade, vários outros vive essa mesma sensação de que são únicos. Tudo é apavorantemente colorido, enfeitado e com mil e uma possibilidades de exercício narcísico. É o seu dia e sua vida contada com imagens, vídeos, som e se tivesse cheiro, não duvido que algumas pessoas colocassem a sua própria comida no orkut.Os sentimentos estão sempre a flor da pele, todo mundo ama, abraça, sorri, beija, adora o tempo todo e todos tem algo interessante pra dizer, um álbum cheio de preferências, de livros, de bandas, de coisas que fazem parte de sua vida, mas que precisam ser divididas, pois todos precisam saber quem você é. Claro que eu sou uma pessoa suspeita para falar, como sempre sou me qualquer texto, pois sou desconfiado com efusividade, com demonstrações de afeto exageradas ou com defesas extremas das preferências. Sou um chato, em resumo.


Mas é claro que o Orkut tem a sua utilidade. Conhecer eventos, ver as fotos de um show, baixar livros, músicas etc. O problema é que tudo isso vem flutuando em meio em um mar de entulho cotidiano, em meio a vários jogos do "beija ou morde?", do "você pegaria a pessoa acima?" ou de "pega ou passa fora?". Obviamente que é um lugar de informação. Se é pra usar o termo "navegar", diríamos que, navegar no orkut é fazer um passeio pelo rio tiête da vaidade, mas onde ainda é possível encontra coisas que valem a pena ser lidas, vistas e comentadas.


Mas não se preocupem, sou tão parte disso quanto qualquer um de vocês. Faço parte desse pacto silencioso de vigilância (ou monitoramento para os mais eufêmicos) da vida alheia.Do vouyerismo de cada dia. É justamente por ser exagerado e parcial que esse texto pode ser lido, divulgado ou execrado. E isso é algo que pode incomodar as pessoas que conseguem ver muita utilidade no orkut. Mas acho que não são muitas e é por isso que sinto, no fim das contas, a sensação de que NINGUÉM VAI LER ESSA MERDA.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

COBERTURA ESPORTIVA Festa, violência e impunidade

Repassando do Observatório de Imprensa: www.observatoriodaimprensa.com.br

Por Luciano Martins Costa em 8/12/2009
Comentário para o programa radiofônico do OI, 8/12/2009


Depois da segunda-feira (7/12) em que as imagens da violência mancharam as comemorações no final do campeonato nacional de futebol, a imprensa faz uma abordagem rápida e superficial dos acontecimentos, e segue a vida.

Na televisão, as emissoras da Rede Globo deram destaque muito maior à invasão do campo no estádio Couto Pereira, em Curitiba, do que às cenas dos conflitos entre torcedores de facções rivais do Flamengo, que se engalfinharam nas ruas próximas ao estádio do Maracanã após a vitória contra o Grêmio de Porto Alegre.

A Rede Bandeirantes dedicou muito tempo e comentários aos dois acontecimentos, e seus comentaristas cobraram medidas das autoridades, lembrando que o Brasil precisa adotar medidas para prevenir a violência associada a jogos de futebol. Afinal, vamos sediar uma Copa do Mundo em 2014.

Nenhuma cobrança

Tudo indicava que os jornais retomariam as antigas campanhas pelo controle das torcidas organizadas. Mas nada aconteceu. Merece registro apenas a iniciativa do Globo, que na primeira página em sua edição de terça-feira (8/12), afirma que o Brasil foi "reprovado no teste da Copa".

O texto constata que houve má gestão na partida final do campeonato, desde a desorganizada venda de ingressos até a confusa entrada dos torcedores no Maracanã, além das cenas de selvageria no estádio do Coritiba.

No rescaldo das cenas vergonhosas, registra-se apenas a interdição do estádio Couto Pereira e algumas ações da polícia, como a detenção de dois vândalos por desacato e o indiciamento de um motorista que causou a morte de um jovem ao fugir de uma confusão de torcedores.

Nenhum anúncio de medidas mais eficientes contra as hordas que invadem as ruas em dias de jogos de futebol, nenhuma cobrança mais efetiva das autoridades por parte da imprensa.

Problema escondido

Faz pouco mais de seis meses que o jovem corinthiano Clayton Ferreira de Souza foi espancado até a morte por torcedores do Vasco da Gama, numa das semifinais da Copa do Brasil deste ano.

Na ocasião, os jornais publicaram apenas as versões da polícia, que liberou os suspeitos, e ignorou as evidências de que havia ocorrido uma emboscada e que a própria Polícia Militar havia criado as condições para o conflito.

Não há notícias de mais investigações, e os assassinos podem contar com a impunidade.

Os clubes entram em férias, e mais uma vez o problema da violência nos estádios vai para baixo dos tapetes das redações.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cadáver Pega Fogo durante o Velório: uma linda reflexão para o dia de Finados.

Capa do disco

O dia de Finados já passou. Lavamos túmulos, levamos flores, choramos e dedicamos aquele respeito aos que nunca valorizamos em vida. A morte melhora todo mundo. Claro que relembrar os mortos tem um papel simbólico importante. Ainda mais se pensarmos que como todo bom feriado, deve ter acabado em muita cerveja, que torna a memória ainda mais seletiva e os afetos exacerbados. A questão é que não relembro os mortos, mas, como gosto de alguns vivos, é para eles que ofereço essa linda reflexão sobre o dia de Finados. Essa é letra da música Flores de plástico ao amanhecer dos cariocas do Fernando Pellon e Renato Costa Lima, lançadas no disco Cadáver Pega Fogo Durante o Velório. Esse é um disco de samba, lançado em março de 1983, e que é indispensável por um motivo simples: é um clássico para quem adora música politicamente incorreta. Para quem acha que Rogério Skylab é um gênio, está faltando ouvir esse. O álbum foi censurado durante um ano pela ditadura militar e até hoje ainda é meio desconhecido, circulando em blogs e comunidades do Orkut. Ser censurado pela ditadura não parece ser grande coisa se pensarmos em todos os autores, cantores e compositores censurados no Brasil durante o período. Mas o que torna esse disco maravilhoso são as letras, que misturando poesia ao estilo Augusto dos Anjos, possuem um senso de humor sinistro e falam de escatologias, violência urbana, morte, loucura, suicídio, masoquismo, prostituição e por aí vai. Tudo regado à base de muito samba. E nesse “por aí vai” é que entra essa letra que colocamos aqui. A reflexão de um morto sobre o dia de finados. Tive contato com esse disco em 2008 e me apaixonei logo de cara. A capa traz a foto dos integrantes da mesma maneira como eram anunciados os procurados pelo regime militar. Em volta das fotos, notícias recortadas do jornal carioca A Ultima Hora. As composições são todas de Fernando Pellon e Renato Costa Lima. Os convidados especiais no disco são Synval Silva, Nadinho da Ilha e Cristina Buarque, além de João de Aquino e Paulinho Lêmos nos arranjos.



Atualmente o Fernando Pellon é geólogo da Petrobrás. Vejam o currículo do cara. Ainda há uma esperança para nós, músicos:http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4707219H1

Download do disco completo: http://www.4shared.com/file/113644979/ab2b6936/Cadver_Pega_Fogo_Durante_Velrio.html

Flores de Plástico ao Amanhecer

Cadáver Pega Fogo durante o Velório.
Composição: Fernando Pellon e Renato Costa Lima


No dia de finados
Constatará o mundo
Minha memória reverenciada
Bateste em retirada
A mim não deves mais nada
Com tua consciência estás desobrigada
Só sei que quando contemplei flores de plástico
Ao amanhecer ornando a minha tampa
Quase levantei indignado a tampa do meu pesado ataúde
Quis fazê-lo, mas não pude por estar debilitado
Um cadáver, um coitado em estado precário de saúde

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Guidable: a verdadeira história do Ratos de Porão


Ano de Produção: 2008
Produtora: Black Vomit Filmes
Gênero: Documentário
Duração: 121 min.
Suporte: DV CAM, colorido
Direção: Fernando Rick
Co-direção: Marcelo Appezzato
Produção: Fernando Rick, Marcelo Appezzato, João Gordo
Edição: Fernando Rick, Marcelo Appezzato
Fotografia: Rodrigo Terra
Correção de Cor: Bruno Malkaviano
Som Direto: Juliano Zoppi; Câmera: Rodrigo Terra, Fernando Lamb, Marco Fernandes, Moreira
Finalização de Áudio: Eduardo Beraldo, Juliano Zoppi; Pesquisa de Arquivo: Fernando Rick, Marcelo Appezzato; Stills: Marcelo Appezzato; Arte de Poster e Capa: Gabriel Renner

GUIDABLE: termo criado pelos integrantes da banda para definir confusão mental, bagunça generalizada ou simplesmente um sei lá. Também pode ser usado quando não se acha a palavra certa no momento apropriado. Muitas vezes substitui o foda-se com eficiência.

Bom, nunca resenhei nenhum filme por aqui. Mas a ocasião é especial por se tratar de algo que fez e ainda faz parte da minha vivência. Estamos falando do documentário “Guidable: a verdadeira história do Ratos de Porão”. São 121 minutos divertidíssimos, informativos (pra quem gosta da banda) e ainda tem uma lição de moral no fim (quase uma fábula). O filme foi rodado entre os anos de 2007 e 2008 pela proutora Black vomit. Se é a verdadeira história do Ratos de Porão eu não sei dizer. E sei dizer menos ainda se é um bom documentário no tocante a sua produção. Enquanto algumas bandas e artistas investem um bom dinheiro para que suas histórias sejam exibidos nas grandes salas, como é o caso dos Paralamas do sucesso e do "ilustre" deputado Frank Aguiar, dá pra notar que Guidable foi um filme de baixo orçamento. Mas isso não é algo tão essencial a se considerar, até porque não existe uma relação diretamente proporcional entre a qualidade de um filme e seu orçamento. Não imaginaria a História do Ratos de Porão narrada em forma de um longa-metragem, como o que foi feito para contar as peripécias burguesas de Cazuza, por exemplo. Não há nada de novo na forma de contar a História do grupo. A narrativa é linear e tem como eixo a discografia do RDP. O bom é por ser uma síntese sobre a memória de três décadas dessa importante banda do rock/hardcore brasileiro através da seleção de fontes, que geralmente se encontram dispersas na internet, em revistas, arquivos pessoais e na cabeça dos próprios integrantes e entrevistados. Destaque para a riqueza dos depoimentos que não mascaram os conflitos existentes entre antigas formações da banda e das considerações feitas por figuras do punk nacional, como o Redsón do Coléra. Em certos momentos o filme ganha um ar de terapia de grupo com platéia quando ouvimos as queixas e mágoas acumuladas por 30 anos.

Tudo isso são constatações óbvias e essa que vêm é mais ainda: Narrar a História do RDP é a narrar um pedaço da História do movimento punk no Brasil e as dificuldades de se “viver” da música e da arte independente. Eu poderia até ir mais longe e dizer que o documentário fornece um exemplo sobre os malefícios do abuso de drogas descrito pela boca dos próprios integrantes do RDP, mas acho que seria uma lição muito boba e fácil, até por que eu fiz mais rir do que refletir sobre isso. Vamos deixar essas lições para outros segmentos da cena alternativa que tem mais propriedade para falar sobre o assunto. O documentário foi apresentado em Aracaju na sessão Notívagos do Cine Cult, na virada do dia 03 para o dia 04 de Outubro. Reclamou-se da data e do choque com outros eventos da cidade. Bom, se quisermos tanto sair da nossa suposta “condição provinciana” não podemos agir como tal e achar que por ser cidade pequena todo organizador tem que marcar eventos em dias diferentes pra todo mundo possa assistir e não chocar com mais nada. Uma característica do circuito cultural de grandes cidades é justamente a possibilidade de escolher aonde ir.

Quanto ao filme, destaco alguns pontos. São hilárias as passagens sobre as “baianagens” (palavra do guitarrista Jão) da primeira turnê do RDP na Europa ou as apresentações do RDP no Gugu e em programas infantis para cumprir obrigações contratuais com a gravadora Eldorado.Tudo isso tá no youtube. Mas, uma coisa em especial me toca nesse documentário. O fato de ser a história de uma banda de pobres. Parece que é mais gostoso ver um monte de caras saídos da merda ganharem o mundo fazendo o que gostam ao invés de celebrar o sucesso dos bem nascidos. Em qualquer lugar presenciamos isso e a forma como esse tipo de banda enche a boca pra dizer que batalharam muito tempo. Na verdade sempre tiveram todas as condições de mudar de estado, comprar boa aparelhagem e um monte de amigos infiltrados nos grandes canais de comunicação. Aqui em Aracaju a coisa é mais escancarada, por que tudo é tratado no personalismo e de forma bem aberta. Perdoem a leitura meio classista, mas eu acho que quem tem ou já teve banda e já juntou dinheiro do trabalho pra comprar um pedal de guitarra, um amp, um kit de pratos de bateria ou gravar uma demo sabe do que estou falando e se identifica com as histórias sobre não tocar por falta de material ou não ter dinheiro pra prensar seu próprio material etc e tal.

A sessão apresentada no shopping Jardins terminou com o show da Karne Krua, que também tem uma longa estrada e, inevitavelmente, era a banda ideal para fechar a noite. Gostaria de terminar com um leve exercício de colunismo social destacando como digno do “porão” o comportamento de algumas pessoas. Fumaram quando pediram que não fumassem, falaram alto durante o filme incomodando quem queria assistir, levantaram e passaram toda hora na frente da tela. Teve cara que saiu de casa pra dormir durante a sessão e colocar os pés na cadeira das pessoas em frente. E durante o show conseguiram o impossível: chamar mais atenção do que a atração da noite fumando um baseado que podia ser apreciado melhor em outro lugar.Seria ótimo se o público amadurecesse junto com o crescimento do cenário alternativo.Na verdade, seria o ideal, mas vivemos a arte do possível.



Mais detalhes do filme no site: http://www.blackvomit.com.br/guidable

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Guerra De Facão - Falcão e Zé Ramalho (Composição: Wilson Aragão)

Confesso: sou fã!




A dor do cocho é não ter ração pro gado
A dor do gado é não achar capim no pasto
A dor do pasto é não ver chuva a tanto tempo
A dor do tempo é correr junto da morte
A dor da morte é não acabar com os nordestinos
A dor dos nordestinos é ter as penas exageradas
E a viola por desculpa pra quem lhe pisou no lombo
e lhe lascou no cucurute vinte quilos de lajedo.
Em vez de achatar pra caixa-prego o vagabundo,
que se deitou no trono e acordou num pau-de-sebo.
Eh eh eh boi, eh boiada, eh eh boi
A dor do jegue, tadin, nasceu sem chifre
A dor do chifre é não nascer em certa gente
A dor de gente é confiar demais nos outros
A dor dos outros é que nem todo mundo é besta
A dor da besta é não parir pra ter seu filho
A dor pior de um filho é chorar e mãe não ver.
Tá chegando o fim das épocas, vai pegar fogo no mundo,
e o pior, que os vagabundos toca música estrangeira
em vez de aproveitar o que é da gente do Nordeste.
Vou chamar de mentiroso quem dizer que é cabra da peste.

A dor do sol é que ele não conhece a noite
A dor da noite é que não tem mais seresteiro
A dor do seresteiro é o medo da polícia
A dor da polícia é ter ladrão no mundo inteiro
A dor do mundo inteiro é que tá chegando gringo
A dor pior de um gringo é outro gringo do outro lado
Não sei se tô errado mas arrisco meu palpite
de acabar com as bombas "atromba", encoivarar os rifles,
tocar fogo em toda tenda que é de fabricar canhão.
Morre muito menas gente se a guerra for de facão...

sábado, 5 de setembro de 2009

Religiões e universitários


Fonte: http://perrusis.zip.net/images/Ateu.jpg

Até os treze anos eu rezava diariamente. Não sei o que aconteceu, mais isso perdeu toda a força em mim.Mentira. Eu sei o que aconteceu e é isso que eu vou falar nesse texto. Antes de ter contato com qualquer ciência, o pensamento sobre religião, Deus e a divina providência já haviam deixado de fazer qualquer sentido. Já dormia sem rezar e não tinha o mínimo remorso. Dormia como uma pedra. Hoje em dia, Deus (em seus vários nome) e a religião ( em suas várias formas) saíram totalmente do meu foco de interesses. Durante o período da universidade eu tinha uma posição que eu considerava mais retórica do que necessariamente um posicionamento. Eu me acreditava agnóstico, ou seja, (tentando fazer uma generalização didática aqui) defendia o pressuposto de que a discussão sobre a existência se fundamentava em dois lugares opostos que partiam da mesma natureza. Quem acredita não tem evidências e quem não acredita também não. Assim, a discussão é fundamentada em dois opostos. É como discutir Vasco e Flamengo pra saber quem é o melhor mesmo sabendo que um vascaíno não vai dizer que o Flamengo é bom e que um vascaíno também não faria algo do tipo. Ando pensando nisso a um bom tempo e principalmente porque eu venho descobrindo que o pensamento metafísico é mais forte do que se imagina na Universidade. Lembro dos primeiros períodos em que um amigo meu ao abrir um e-mail viu um convite para participar de um grupo de psicólogos cristãos. Isso mesmo! Psicólogos cristãos. Na minha tradução aquilo era igual a grupo de auto-ajuda. Abro um parêntese aqui, pois pra mim, da mesma forma que auto ajuda não é psicologia, Paulo Coelho não é Filosofia. Pronto! Protesto feito! Desculpe quem gosta, mas aquilo é um lixo. Lembro de sempre passar nos corredores e ver o pessoal da Aliança Bíblica Universitária da UFS cantando seus hinos de louvor e achava aquilo uma idiotice. Hoje em dia não acho mais, creio que um dos grandes sucessos que a História e as ciências humanas em geral conseguiram colocar em mim foi aprender a lidar com a diferença. Além do mais, eles pelo menos são fiéis a princípios que não são modismos. Pior são os universitários que do dia pra noite aderem a novas religiões, seitas místicas e coisas do tipo e que são os mesmos que vão criticar o catolicismo. Minha turma do curso de História estava repleta de evangélicos e católicos. Ao contrário do que se pensa, os ateus e afins eram minoria e ninguém mudou de crença por causa da História. Muitas vezes recebiam com maus olhos qualquer proposta que questionasse o Cristianismo. Acho que quem diz que História é coisa de ateu se baseou em um conhecimento muito restrito do que é realmente a História como oficio e a História ensinada. Já vi muito na Universidade, cadernos com capas de Nossa Senhora, Smilingüido (aquela formiga de luvas que tem nos produtos católicos) e coisas do tipo. Com o tempo isso se mistura em nossa vida e a gente vai percebendo que isso é normal. Assim, a academia e toda a sua carga científica, pelo menos nas Ciências Humanas, não tem essa força que se imagina. A ciência não tem esse poder de convencimento a ponto de fazer as pessoas repensarem crenças que foram resultado de anos de socialização de pais, professores etc. Mas ai eu acreditava que existia certo ponto onde isso cessava em quem ia além nos estudos de qualquer ciência ou pelo menos diminuía drasticamente. Engano meu. Recebo com muita freqüência dos colegas da pós-graduação, até mais do que gostaria, Power points com mensagens de fé, esperança, Cristo e Deus pra cá e pra lá, que tem alguém olhando por mim, e o dom vida e perêrê e parará. Isso reúne duas coisas que eu não suporto: Power points e mensagens religiosas. Conjugados, pior ainda. Sinceramente, acho um certo desrespeito, claro que não intencional, você partir do princípio de que todos têm uma crença no Deus e ainda mais no Deus ocidental ao enviar essas mensagens. Eu nunca enviei nenhuma mensagem dizendo: Vejam que belas palavras sobre o ateísmo e a descrença na religião. Parece que existe um consenso de que todos nós partimos de alguma crença religiosa e que, coincidentemente, ela se aproxima do cristianismo. E se eu mandasse uma mensagem budista? Ou com dizeres do Alcorão? Ou com cânticos da Umbanda e do Candomblé? Seria recebido da mesma forma? Só sei que essas coisas me fizeram repensar as minhas posições. Há muito tempo eu não pensava nisso e decidi que... vou fundar uma Igreja universitária!!! Ela reunirá todas as tendências. Será A IEUB (Igreja eclética universitária do Brasil). Será em um terreiro, com rodas de violão, charutos, hóstias e cristais e nosso Deus será um extraterrestre marxista que descerá da via láctea vestido de pai de santo e com uma bíblia na mão gritando como pastor trechos de filme de Almodóvar e com uma bandeira GLBTT na testa. Coisa de Pimba do mais alto nível. Todas as tendências. Hahahahahahaha. Gente...brincadeira. Não se trata disso, apesar de não parecer má idéia. Ciência não dá dinheiro mesmo em curto prazo. Na verdade, o que eu quero dizer vai parecer meio óbvio pra quem me conhece, mas eu percebi que definitivamente não acredito em Deus. Na verdade, não é uma questão de crer. Na verdade, nunca senti falta de Deus na minha vida. O pior é que a gente sempre ouve, principalmente das pessoas mais velhas que já pecaram muito e agora querem curtir o céu, que todo mundo precisa ter uma religião porque é preciso acreditar em algo. Mas e quem disse que eu não acredito em algo? Acredito na justiça social porvir, acredito no desenvolvimento da ciência, acredito que as coisas simples às vezes são as essenciais. Só não acredito em Deus. Nunca senti dessa “dor de barriga espiritual” de que as pessoas falam. O pior é que às vezes ouço de pessoas dizendo que “certas pessoas nunca conquistam nada, porque não tem crença em coisa alguma”. Nunca fiz qualquer barganha metafísica pedindo a Deus coisa alguma. E nunca o culpei pelo que não consegui. Melhor ainda, nunca fiquei em cima do muro dizendo, “não vou a Igreja, mas acredito em Deus” ou então “tenho um lado espiritual independente de religião”. 1. Não vou a igreja, a terreiro, a sessão de mesa branca se não tiver uma finalidade didática. Pensei em levar meus alunos para conhecerem um terreiro. Um professor logo me advertiu: “já tentei, mas as mães quando sabem da nossa intenção dizem que aquilo não é religião de gente”. Bom, a Cultura Afro está lá para ser dada e temos que responder a demanda curriculares e as demandas da comunidade. 2. Nem lado espiritual tenho. Não adianta vir com budismo, Umbanda, Espiritismo, Candomblé, Seicho No-Ie e qualquer culto que mexa com coisas sobre luz interior, luz da vida, paz interior, equilíbrio, essência, cristais, chácras, incensos, elefantes de vários braços e etc. E nem aquela religião que deixou Tim Maia mais maluco do que ele já era: A Cultura Racional e aquele papo de outras civilizações pára além da terra. Nada disso, pra mim estamos girando sozinhos no espaço, pra mim a vida é matéria, sem sentido determinado, uma luta constante, cheia de possibilidades e por ai vai! E isso foi fazendo sentido aos poucos. Sem forçar a barra, sem transitar em várias religiões pra tentar se encontrar ou para fazer parte de modismo universitários com as religiões “oprimidas”, sem comer hóstia, pagar dízimo ou incorporar entidade. A identidade muitas vezes se constrói por oposição ao outro e não sei se estou fazendo exatamente a mesma coisa optando por um lado definido. Eu ouço muito na universidade a “critica ao terror da Razão” e que a racionalidade pode estar a serviço da opressão e tudo mais. Mas acho que prefiro o discurso da racionalidade cheia de buracos ao discurso da fé. Pelo menos o discurso da racionalidade, por mais datado que seja, é o mais propenso a discussão e menos sujeito aos anacronismos, ou seja, querer sustentar valores que não cabem mais em uma sociedade moderna. Quando penso na bancada religiosa que barra os projetos sobre pesquisa sobre células tronco e sobre aborto percebo que fiz uma boa escolha. Concluo dizendo que, se Deus está em qualquer lugar, logo, ele está nesse blog. Quem sabe não é ele que está escrevendo para testar a fé de vocês. Quem sabe eu, Kleber Luiz, seja Deus e vocês nunca perceberam.


P.S: Deus com letra maiúscula é apenas questão de respeito às regras gramaticais.