domingo, 27 de junho de 2010

O fim dos rebeldes é a ode a família feliz? (manifesto careta)

Bom, não existe sabedoria no tempo por si só, nós que atribuímos valor a mudança, e acompanhar a duração de certos processos é sempre muito gostoso. Muita gente que eu conheço que alimentou grandes sonhos de comunhão socialista, discursos contra hegemônicos, que sempre alardeou sobre os grandes planos que a vida reservava, a liberdade, a aventura de “se entregar ao mundo”, sempre contra a “nossa” caretice, agora estão inseridos dentro daquilo que “nós”, mortais, sempre fomos acusados de fazer parte: os valores familiares.

O engraçado é que muitos de “nós”, reacionários, estão seguindo a vida de forma paralela a esses esquemas. Pensando em carreira, ser visto e reconhecido, em conhecer o mundo, começar uma vida nova, etc. Para “nós”, caretas, filhos e família são agora um acidente de percurso, visto a quantidade de coisas que pretendemos fazer. Muitas das pessoas que esfregaram suas bandeiras em nossa cara estão levando uma vida de emprego-filho-esposa/marido–família-casinha, com dilemas que passam longe das discussões como: “O fracasso do socialismo é o fim da história?” ou “Luta armada ou revolução pelas idéias?”.

Nada contra formar uma família, até porque, segundo alguns, eu sou conservador e às vezes moralista, logo, devo gostar de família, né? É lógico que não. Quem me conhece sabe o que eu acho de família e parentes. O meu estranhamento é que tudo o que se disse foi apagado. Eu, pelo menos, nunca saí dizendo “dessa água não beberei” Prefiro assim. Mostra que não sou fiel a idéias muito fixas, essas patologias juvenis que avançam na idade adulta e tornam algumas pessoas intragáveis.

Tudo isso que estou dizendo está baseado na observação da nossa “janela indiscreta” contemporânea: o Orkut. Abrindo as atualizações, sempre percebo que o Orkut está se tornando um ambiente familiar, cheio de linhagens recém-formadas, muitas sob circunstâncias ocasionais, repentinas, torrenciais... Os libertários, os adeptos do amor livre, os devassos e libertinas (por convicção ou por desespero), os leitores de Sartre, os maníacos sexuais, as ninfomaníacas, os hedonistas, os mal resolvidos sexualmente, estão todos se tornando pais/mães de família, enquanto nós, os supostos normais, os caretas, os tradicionais, conservadores, moralistas, estão sonhando alto, pensando em família como uma vontade e não como resultado de uma camisinha estourada, da trepada de uma noite etílica, da necessidade de arranjar alguém pelo medo da solidão, de não se sentir capaz de ir além, por preguiça de persistir nas noites intranquilas de solidão em frente ao computador, escrevendo trabalhos e textos, sensação que a estabilidade familiar supõe apagar.

Termino esse texto dizendo: meus parabéns a todos os caretas da nossa laia! Espero que nos encontremos uma dia do alto de nossa caretice, de nossas carreiras que foram vistas como chatas e convencionais, dos livros lidos, dos lugares vistos, dos debates, vivências e lugares diferentes, vendo os que ficaram para trás e pensando "e nós é que erámos os tradicionais?".

Ao caminho que parece certo, ao destino que ninguém pode escapar, a idéia de familía como maldição, como certeza última de todos os homens e mulheres, nossa renúncia megalomaniaca dará uma resposta convincente. Principalmente aos que acreditam que a vida está resumida em crescer, reproduzir e morrer...de tédio.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Um frankstein televisivo (parte 1)



O que aconteceria se misturássemos o Domingo legal e suas mulheres em trajes de banho; CQC e seus apresentadores que misturam jornalismo de, algumas vezes, duvidosa utilidade públicae humor (apesar de ser um bom programa); Porta da esperança e sua distribuição paternalista de sonhos aos pobres e Pânico na Tv e seu...sei lá...aquilo que eles fazem lá? Resposta: eu não sei. Provavelmente uma tragédia.

Não sei se o programa “Os Legendários”, exibido na rede Record, seria exatamente uma tragédia. Existem coisas piores: Carla Perez cantando músicas infantis, Netinho apresentando um programa, Bárbara Paz como atriz e sex symbol, Zorra Total.A lista é grande.

Não prego pelo purismo televisivo, pela idéia nata, original, genial, inédita. Até porque da mistura podem sair bons frutos. Mas posso dizer, aproveitando a deixa dos “frutos”, que a proposta lançada por Marcos Mignom e seus ex-companheiros de MTV e atuais de Record, tem sido até o momento um abacaxi televisivo. Uma mistura patética de falso engajamento, que já era perceptível em outros da mesma linha, com programa de auditório de quinta categoria, bem no estilo Gugu, Silvio Santos e Caldeirão do Hulk.

Legendários não têm nada de revolucionário como seu idealizador anunciou (depois ele voltou atrás, dizendo que é apenas entretenimento...depois falamos nisso). É um grande pastiche, uma imitação de tudo o que já vimos na televisão aberta. Um Frankstein televisivo, sem personalidade, que alimenta a vaidade colossal de seu apresentador, que não consegue parar de fazer posses, como se a câmera fosse o espelho de sua casa.

Tudo começou quando estourou a noticia de que João Gordo (Ratos de Porão) havia assinado com a Record? “A contratação mais improvável da televisão brasileira”. Acho difícil. É mais improvável João Gordo não querer ganhar dinheiro. Achei estranho, mas na época não prestei atenção. Nada contra, todo mundo tem que fazer o que gosta.

Quando o programa foi ao ar, vi um João Gordo domesticado, sem palavrões, sem os chingamentos, sem tudo aquilo que fazia dele um apresentador “peculiar”, por não poupar ninguém de perguntas e assuntos incômodos. Suas matérias? São regulares. Comprovam apenas que essa coisa de diploma nunca impediu o charlatanismo ou o falso pensamento de que jornalismo é apenas uma câmera na mão e uma idéia (pauta) na cabeça para expor o “sistema”. As matérias são tudo aquilo que o jornalismo “marrom” da globo e de outras emissoras já fizeram melhor e a partir de menos informações do que as que se dispõe hoje.

Assistindo, também vi uma entrevistadora que é uma mistura de Chiquinha com um emo, gritando a todo instante, em quadro que expõe profissionais a uma enxurrada de desinformação em nome do humor. De Ronaldo (jogador entrevistado semana passada) não espero nada (nem mesmo futebol), mas de uma ginecologista, em um país cheio de mães adolescentes, uma audiência nacional de jovens e com transmissão para outros tantos países, o que ela faz? Mostra um festival de “whatever” (nome do quadro), de perguntas esdrúxulas, sem sentido, que se pretendiam causar algum impacto, o fazem apenas pela sensação de “ou eu estou ficando velho ou eu não sei mais o que é engraçado”. Eu voto na primeira. Entrevistas que são no mínimo desconcertantes, decepcionantes, para uma moça (Mia Mello) que já ganhou um prêmio de humorista revelação. Se ganhou, foi no grito, que é só o que ela faz no quadro.

Outro quadro é o dos caras do Hermes e Renato que, agora não são mais Hermes e Renato, e estão à procura de um nome mais adequado. A gama de opções é vasta e eles não chegaram a um consenso, pois, de “filhos do Edir” até “mercenários” a gama de opções é vasta e nem sempre muito fácil de digerir. Do que era do Hermes e Renato, sobraram alguns caras falando e fazendo força pra aparecer o tempo todo em uma mesa na lateral do programa, cheios de esparadrapos, fazendo comentários o tempo todo, e não perdendo um lance de câmera para fazer qualquer bico para audiência. Mas, um quadro deles realmente é muito bom: o “repórter boato”,aquele foi bem pensado.Me lembrou as tirações de sarro do CQC sobre o jornalismo, mas tudo bem. Nada que um lixeiro, do alto de sua vassoura não supere.

Junto deles entrou, não me perguntem como, Gui de Pádua, que já fez quadros em programas da Globo e agora ganhou espaço no Legendários fazendo aventuras ariscadas como saltar de pára-quedas do congresso ou de grandes torres pelo mundo. No episódio do congresso, de início, fiquei impressionado, por que eles haviam se infiltrado lá dentro para fazer o salto. Achei incrível. Logo em seguida, Marcos Mignom agradece a colaboração do Congresso em permitir as filmagens... tudo show...permitido pelas nossas excelências de Brasília. Uma subversão dramatizada, controlada. O que é um contra senso, se pensarmos que um dos significado da palavra, de acordo com o dicionário Houaiss, é: revolta, insubordinação contra a autoridade, as instituições, as leis, as regras aceitas pela maioria. Tudo bem...é apenas entretenimento.

Fora isso, tem Jac Kury, a ex BBB, que,até um dia desses eu não lembrava que havia existido no planeta terra. Ela, em seu maio apertado, que esparrama pelos cantos os seus litros de silicone, chama mais atenção pelo decote e pelas roupas do que pelo que apresenta como matérias. Na mesa lateral ela muito mais um enfeite do que uma apresentadora.

Temos também o Supertição, um herói negro, metido em um collant amarelo, cuja voz lembra a do Netinho do Negritude Jr. Um nome de herói no mínimo preconceituoso, se pensarmos que existe gente sendo processada por ter dito muito menos (mas não justificável, é claro) a algum afro-descendente. Sua tarefa: realizar o sonho de quem quer comprar desde uma máquina de sorvete até abrir um negócio em casa ou mesmo colocar o Neimar na seleção. O que já deu um problema sério, pois, acamparem na frente da casa de Dunga em um sábado a noite não foi considerado engraçado pelo técnico da seleção. O que gerou um puxão de orelha nos bastidores. O quadro é uma referência direta aos programas, cuja SBT é mestre, de distribuição de prêmios com uma história triste de fundo e um apresentador defensor dos injustiçados. Obviamente, nem Silvio santos e nem Luciano Hulk andam de collant. Pode ser que seja uma alegoria desses programas, mas se era pra ser uma crítica, não funcionou.

Parece que o Brasil encontrou uma segunda fórmula de humor para explorar. Um descanso dos programas pastelão da rede Globo, cujo humor, vive dos tempos áureos de Chico Anísio e dos Trapalhões. Essa nova vertente, cheia de intervenções gráficas, humor “político” e provocativo, que não poupa celebridades, de inicio pareceu que vinha pra ficar. Mas, a fórmula tem mostrado sinal de cansaço. CQC já não rende tão bons momentos. O Pânico na TV já esgotou o pouco de inteligência que tinha. Muitos desses comediantes são oriundos do “stand up” (aquele em que é apenas um cara e o microfone) e são muito bons. Mas parece que agora o humor brasileiro está sendo acometido por um esgotamento dessa proposta. Quem percebeu isso est´[a ganhando o seu troco por fora, divulgando o próprio nome. Até mesmo os pioneiros estão demonstrando não saber mais se reinventar.



Essa merda, continua...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pagando pelo desconforto.

Quanto vale um carnaval? Eu faço essa pergunta um pouco tarde,o carnaval já passou e dizem os mais cínicos ou os mais propensos a seguir o senso comum que o ano começou agora, depois do carnaval. Faço essa pergunta pois na minha pobre cabeça de pão-duro é surreal gastar um mês de trabalho em 4/5 dias. Claro que quem pode paga. Não vou entrar aqui na discussão sobre oferta e procura de bens culturais. Só não consigo entender como as pessoas movem montanhas, são capazes de um esforço sobrenatural pelo carnaval. Empregam energias que não oferecem muitas vezes a qualquer outro empreendimento. Já digo logo que sou suspeito, nunca fui pra Neópolis e nem pra Olinda. Nunca desci ladeira com o Zé Pereira e nem vi o Galo da Madrugada. A minha questão é de ordem mais prática. Eu vejo pessoas pagarem o olho da cara pra alugarem casas em péssimo estado de conservação, com deficiência de água e energia, cheia de desconhecidos, de quem não se sabe as intenções e nem a procedência, sendo acordado com o barulho dos habitantes da casa que escovam os dentes com cerveja e acreditam que você vai achar super divertido ser acordado por uma trupe de bêbados e pelo barulho do que há de mais moderno em matéria de pagode baiano, arrocha, pisadinha e axé tocado no volume 10 da mala de algum idiota que obriga todo mundo a atestar a potência do seu som. Dane-se o Zé Pereira! O que importa é chamar a atenção, mesmo que isso custe a diversão dos outros. O pior é que não é um som, é som grave, mal definido, batendo dentro do seu coração como um soco.Além disso, ser exposto a todo tipo de substância que a ma-fé de quem não sabe se divertir pode proporcionar: de cal a cuscuz lançados na sua cara. Tudo isso que digo aqui eu não vivi, até porque isso para mim passa longe de ser carnaval, é selvageria mesmo. Mas já ouvi muuuuuiiitas histórias de quem já foi, pagou caro pelo carnaval e voltou sem sequer ter “pegado” alguém. Chegou na cidade, se alojou com desconhecidos, comeu mal, bebeu muito, tomou banho de cuia no quintal com porcos e galinhas, dormiu no chão, acordou com barulho, perdeu objetos no meio da farinha de trigo lançada como argamassa para os excrementos alheios e teve que aturar 4/5 noites de bêbados e nativos intrometidos. E o mais engraçado: vai de novo! Nunca consegui entender, e mesmo que já tenha tido vontade de conhecer o carnaval de Neópolis, como é possível pagar caro por tanto desconforto? Eu sou daqueles antiquados que quando a festa não é favorável, fico sem a festa. Nada de pagar 6 meses por um bloco, por uma casa em algum lugar, por um estadia em Recife. Acho que minha constante necessidade de poupar dinheiro me tornou um pão-duro hiper racional. No caso de Olinda eu mantenho o desejo acesso, porque é uma cidade que tem um patrimônio histórico que vale a pena ser visto. Por que se eu for pra Olinda só pra ver um bloco gigante de carnaval tocando as mesmas músicas que eu ouço desde o final de janeiro não vale o custo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Natal...

...e que o mesmo de 2010 seja melhor que o mesmo de 2009.


Elegia 1938 - Carlos Drummond de Andrade

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século, a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Orkut: a especularização do cotidiano


Gostaria de começar esse texto com uma experiência:

Eu acordo, levanto da cama, pergunto o que tem pra comer, escovo os dentes e vou tomar café. Sento no sofá e penso no que tenho de fazer durante o dia. Penso no que está certo, no que está errado, ligo a TV, me chateio por ter ligado e não achar um desenho que preste, vou para o computador ver os emails, leio, se precisar sair, saio, volto, faço o que tenho de fazer, vejo ou ligo minha namorada, digo coisas bonitas, discuto as vezes, faço ligações, vou ao banheiro, ouço música, almoço, descanso, saio, fico em casa, vejo o jornal da noite, vou rever os emails...e por ai vai.

Terrível, né? Contando assim parece muito chato, um verdadeiro exemplo do que há mais corriqueiro na vida. E logo nós, jovens, que estamos sempre falando em viver cada instante como se fosse o último. Logo nós, adultos, que muitas vezes vivemos uma adolescência prolongada. Esse exemplo é apenas uma descrição sumária de um dia da semana na minha vida. Mas, e seu eu narrasse isso aqui durante uma semana, um mês, um ano, cinco anos, e junto a mim várias pessoas diferentes também contassem o que fazem da hora que acordam ao último “pum” que soltam antes de dormir? Contando o que gostam e o que odeiam para outras pessoas que estão o tempo todo também fazendo o mesmo, falando sobre si mesmas. Pois, isso é o Orkut, e lá isso é o que há de mais essencial: contar o cotidiano, o ordinário.

A idéia desse texto surgiu da indignação de uma amiga quem me disse: “estou pensando em matar o meu Orkut”. Perguntei o motivo e ela falou: “cansei de ver esse povo velho se mostrando, fazendo caras e bicos aqui”. O engraçado é que na hora que ela disse isso respondi: “não faça isso, Orkut é assim mesmo”. Depois pensei: “qual a diferença dela matar o orkut dela ou não?” A amizade continua a mesma”. Ai percebi o quanto essa coisa de vida virtual ganha cores de uma quase segunda vida. Dizer que vai matar um perfil não deveria ser algo tão problemático que a gente precisasse pensar tanto para fazer. Porque, fora algumas exceções, qual a verdadeira serventia do Orkut? Encontrar pessoas com quem perdi contato? Bom, das pessoas que adicionei no Orkut (e vice-versa) por tê-las reencontrado virtualmente, mantenho, com a maioria delas, a mesma relação que mantinha antes, só que agora virtual, ou seja, continuam sendo pessoas com quem perdi o contato e ainda pior, a distância antes era presencial, hoje é também virtual. E ainda acabo vendo o que elas andam fazendo todo o dia. Não parece um contra senso? Perde-se o contato com alguém, mas se sabe tudo sobre a vida dela. E a tendência é esse tipo de socialidade se acentuar cada vez mais, visto que, agora o Orkut até sugere amigos...certa vez um garoto me adicionou e eu perguntei de onde ele me conhecia. O cara responde: vi você na sugestão de amigos.

O Orkut parece amplificar de uma maneira muito estranha as relações com as pessoas e com as pequenas coisas da vida. As Novas tecnologias de comunicação como MSN, Orkut, fotolog, blog, twitter são formas de promover uma estandartização, uma espetacularização do cotidiano, do banal. Daquilo que, na frente de uma pessoa seria totalmente descabido comentar com tanta ênfase. Tem gente que não vai na esquina sem mudar o status do MSN com alguma frase, tipo: fui ali na casa de fulaninha fazer “num sei o quê” e volto em meia hora. Que vai comprar pão e coloca mais 20 fotos novas no Orkut. Vai “descer um barro” e posta no twitter. Cada momento parece ser algo pra se guardar, mesmo que seja totalmente comum, trivial. Gosto das coisas simples da vida, mas não vamos exagerar. Parece haver uma imagem a se guardar o tempo todo, em cada foto, uma maneira de se proteger do anonimato através da tentativa se ver constantemente reproduzido em vários lugares. Um perfil do Orkut muitas vezes me lembra aqueles quadros de Andy Warhol em que uma imagem é repetida diversas vezes em cores diferentes.


Uma tentativa de mitificar a própria imagem. Um mundo onde todas as janelas levam a você, quando na verdade, vários outros vive essa mesma sensação de que são únicos. Tudo é apavorantemente colorido, enfeitado e com mil e uma possibilidades de exercício narcísico. É o seu dia e sua vida contada com imagens, vídeos, som e se tivesse cheiro, não duvido que algumas pessoas colocassem a sua própria comida no orkut.Os sentimentos estão sempre a flor da pele, todo mundo ama, abraça, sorri, beija, adora o tempo todo e todos tem algo interessante pra dizer, um álbum cheio de preferências, de livros, de bandas, de coisas que fazem parte de sua vida, mas que precisam ser divididas, pois todos precisam saber quem você é. Claro que eu sou uma pessoa suspeita para falar, como sempre sou me qualquer texto, pois sou desconfiado com efusividade, com demonstrações de afeto exageradas ou com defesas extremas das preferências. Sou um chato, em resumo.


Mas é claro que o Orkut tem a sua utilidade. Conhecer eventos, ver as fotos de um show, baixar livros, músicas etc. O problema é que tudo isso vem flutuando em meio em um mar de entulho cotidiano, em meio a vários jogos do "beija ou morde?", do "você pegaria a pessoa acima?" ou de "pega ou passa fora?". Obviamente que é um lugar de informação. Se é pra usar o termo "navegar", diríamos que, navegar no orkut é fazer um passeio pelo rio tiête da vaidade, mas onde ainda é possível encontra coisas que valem a pena ser lidas, vistas e comentadas.


Mas não se preocupem, sou tão parte disso quanto qualquer um de vocês. Faço parte desse pacto silencioso de vigilância (ou monitoramento para os mais eufêmicos) da vida alheia.Do vouyerismo de cada dia. É justamente por ser exagerado e parcial que esse texto pode ser lido, divulgado ou execrado. E isso é algo que pode incomodar as pessoas que conseguem ver muita utilidade no orkut. Mas acho que não são muitas e é por isso que sinto, no fim das contas, a sensação de que NINGUÉM VAI LER ESSA MERDA.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

COBERTURA ESPORTIVA Festa, violência e impunidade

Repassando do Observatório de Imprensa: www.observatoriodaimprensa.com.br

Por Luciano Martins Costa em 8/12/2009
Comentário para o programa radiofônico do OI, 8/12/2009


Depois da segunda-feira (7/12) em que as imagens da violência mancharam as comemorações no final do campeonato nacional de futebol, a imprensa faz uma abordagem rápida e superficial dos acontecimentos, e segue a vida.

Na televisão, as emissoras da Rede Globo deram destaque muito maior à invasão do campo no estádio Couto Pereira, em Curitiba, do que às cenas dos conflitos entre torcedores de facções rivais do Flamengo, que se engalfinharam nas ruas próximas ao estádio do Maracanã após a vitória contra o Grêmio de Porto Alegre.

A Rede Bandeirantes dedicou muito tempo e comentários aos dois acontecimentos, e seus comentaristas cobraram medidas das autoridades, lembrando que o Brasil precisa adotar medidas para prevenir a violência associada a jogos de futebol. Afinal, vamos sediar uma Copa do Mundo em 2014.

Nenhuma cobrança

Tudo indicava que os jornais retomariam as antigas campanhas pelo controle das torcidas organizadas. Mas nada aconteceu. Merece registro apenas a iniciativa do Globo, que na primeira página em sua edição de terça-feira (8/12), afirma que o Brasil foi "reprovado no teste da Copa".

O texto constata que houve má gestão na partida final do campeonato, desde a desorganizada venda de ingressos até a confusa entrada dos torcedores no Maracanã, além das cenas de selvageria no estádio do Coritiba.

No rescaldo das cenas vergonhosas, registra-se apenas a interdição do estádio Couto Pereira e algumas ações da polícia, como a detenção de dois vândalos por desacato e o indiciamento de um motorista que causou a morte de um jovem ao fugir de uma confusão de torcedores.

Nenhum anúncio de medidas mais eficientes contra as hordas que invadem as ruas em dias de jogos de futebol, nenhuma cobrança mais efetiva das autoridades por parte da imprensa.

Problema escondido

Faz pouco mais de seis meses que o jovem corinthiano Clayton Ferreira de Souza foi espancado até a morte por torcedores do Vasco da Gama, numa das semifinais da Copa do Brasil deste ano.

Na ocasião, os jornais publicaram apenas as versões da polícia, que liberou os suspeitos, e ignorou as evidências de que havia ocorrido uma emboscada e que a própria Polícia Militar havia criado as condições para o conflito.

Não há notícias de mais investigações, e os assassinos podem contar com a impunidade.

Os clubes entram em férias, e mais uma vez o problema da violência nos estádios vai para baixo dos tapetes das redações.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cadáver Pega Fogo durante o Velório: uma linda reflexão para o dia de Finados.

Capa do disco

O dia de Finados já passou. Lavamos túmulos, levamos flores, choramos e dedicamos aquele respeito aos que nunca valorizamos em vida. A morte melhora todo mundo. Claro que relembrar os mortos tem um papel simbólico importante. Ainda mais se pensarmos que como todo bom feriado, deve ter acabado em muita cerveja, que torna a memória ainda mais seletiva e os afetos exacerbados. A questão é que não relembro os mortos, mas, como gosto de alguns vivos, é para eles que ofereço essa linda reflexão sobre o dia de Finados. Essa é letra da música Flores de plástico ao amanhecer dos cariocas do Fernando Pellon e Renato Costa Lima, lançadas no disco Cadáver Pega Fogo Durante o Velório. Esse é um disco de samba, lançado em março de 1983, e que é indispensável por um motivo simples: é um clássico para quem adora música politicamente incorreta. Para quem acha que Rogério Skylab é um gênio, está faltando ouvir esse. O álbum foi censurado durante um ano pela ditadura militar e até hoje ainda é meio desconhecido, circulando em blogs e comunidades do Orkut. Ser censurado pela ditadura não parece ser grande coisa se pensarmos em todos os autores, cantores e compositores censurados no Brasil durante o período. Mas o que torna esse disco maravilhoso são as letras, que misturando poesia ao estilo Augusto dos Anjos, possuem um senso de humor sinistro e falam de escatologias, violência urbana, morte, loucura, suicídio, masoquismo, prostituição e por aí vai. Tudo regado à base de muito samba. E nesse “por aí vai” é que entra essa letra que colocamos aqui. A reflexão de um morto sobre o dia de finados. Tive contato com esse disco em 2008 e me apaixonei logo de cara. A capa traz a foto dos integrantes da mesma maneira como eram anunciados os procurados pelo regime militar. Em volta das fotos, notícias recortadas do jornal carioca A Ultima Hora. As composições são todas de Fernando Pellon e Renato Costa Lima. Os convidados especiais no disco são Synval Silva, Nadinho da Ilha e Cristina Buarque, além de João de Aquino e Paulinho Lêmos nos arranjos.



Atualmente o Fernando Pellon é geólogo da Petrobrás. Vejam o currículo do cara. Ainda há uma esperança para nós, músicos:http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4707219H1

Download do disco completo: http://www.4shared.com/file/113644979/ab2b6936/Cadver_Pega_Fogo_Durante_Velrio.html

Flores de Plástico ao Amanhecer

Cadáver Pega Fogo durante o Velório.
Composição: Fernando Pellon e Renato Costa Lima


No dia de finados
Constatará o mundo
Minha memória reverenciada
Bateste em retirada
A mim não deves mais nada
Com tua consciência estás desobrigada
Só sei que quando contemplei flores de plástico
Ao amanhecer ornando a minha tampa
Quase levantei indignado a tampa do meu pesado ataúde
Quis fazê-lo, mas não pude por estar debilitado
Um cadáver, um coitado em estado precário de saúde